15 Apr 2020

Gostava de estar lá e sentia que precisava estar. Pensava que os humanos tem uma necessidade intrínseca em acreditar, precisam acreditar, e atualmente, acreditavam em qualquer coisa. Como estrangeiro, isso indicava que ele não era lá muito atencioso e crente, então decidiu seguir acreditando em si mesmo. Afinal, acreditar em si é mais importante que acreditar em qualquer outra coisa.

Sonhou com ele essa noite, fazia anos que não acontecia. Por mais estranho que fosse o sonho, gostou porque assim podia lembrar da voz, as vezes tinha medo de esquecer do tom de voz ou das feições do velho. Parou para pensar onde ele estaria agora em meio à pandemia mundial, o impetuoso médico da família e da comunidade. Provavelmente teria torna-do a clínica particular em algum posto aberto de acolhimento e orientação, aquele socialista veterano. Sentia falta do pai e sabia que sempre sentiria.

Queria que ele visse tudo aquilo, queria que todos que amava vissem. Que sentissem a energia daqueles templos mile...

15 Mar 2020

Ele ainda estava imerso em pensamentos com o telefone em mãos quando ouviu uma voz atrás de si que alertava nos megafones espalhados pela avenida sobre a rápida propagação do vírus mortal que tomava o continente onde se encontrava e que já se expandia para as outras regiões do planeta. Não conseguia deixar de pensar na relação entre o poder de mutação e resistência do vírus e a sua semelhança ao ímpeto motor dos políticos que pouco representavam a maioria das pessoas que supostamente lideravam. Ambas as realidades haviam se tornado pulsantes em seu cotidiano, a corrupção e a doença.

Depois de percorrer o Vietnã começava a acreditar que isso acontecia em todos os lugares do planeta: os ditadores, os oportunistas, o parasitismo político, as intoxicações ideológicas. E mesmo com diferenças, ainda era algo naturalizado em todos os países que percorreu, mas ainda assim ele sentia-se forte para provocar a revolução e a mudança quando necessárias. Ele gostava de crer que essa força e coragem d...

15 Feb 2020

As vezes precisava ir até lugares que o lembrassem quem estava no controle da vida. Ou pelo menos, espaços que trouxessem tal sentimento de ilusão. Para chegar mais distante habitou-se a questionar do que tinha mais medo: morrer ou ser ordinário? Definitivamente preferia uma existência mais significativa e breve. Um vírus assolava o mundo com a promessa de ser uma nova pandemia apocalíptica enquanto ele atravessava dois oceanos tendo como seu destino o continente de origem da doença. Mais uma coincidência, mas como sabia que elas não existem e são conspirações do acaso e que o acaso se manifesta através da serendipidade, sabia que não estava lá gratuitamente.

Novamente cruzou meio planeta e cortou os cabelos, viu coisas que quebraram seus dogmas, observou movimentos que reafirmaram suas crenças, experimentou sabores inimagináveis até então e acabou adotando costumes que não pertenciam a sua cultura. Relembrou que nada se constrói só. A Ásia lhe apresentou um novo senso sensorial e socia...

20 Aug 2019

Durante muitas luas manteve a manopla no braço preparado para reagir a qualquer suspeita de ameaça vinda das mutáveis marés. Compreendeu que era fácil ficar com a multidão, difícil era ficar sozinho. Nadava, remava, corria e cavalgava com força animal. O comportamento sobre-humano era consequência dos abusos que havia sofrido quando criança que o faziam renunciar a qualquer tipo de perda escatológica. De tanto ser usurpado, aprendeu a usurpar. Fez com que de alguma forma retribuíssem por sua suposta inteligência e beleza os que as quisessem.

Era como se um morador melancólico do lugar que deveria permanecer no cômodo mais remoto da casa houvesse quebrado o telhado e estava erguido para se mostrar ao mundo. Mergulhou em mares inóspitos e com o passar dos anos aprimorou movimentos distintos para atingir a satisfação, pois era dela que vinham as realizações. Conquistou os sonhos com astúcia, malícia e cautela, e no fim, entendeu que por mais que procurassem diferentes coisas, eram todos pa...

27 Jun 2019

Cresceu sentindo-se bem com a solidão, o lugar mais seguro que conheceu. A certeza de que irmãos espalhados por outros oceanos e continentes compartilhavam dos mesmos sentimentos que os seus lhe trazia segurança. Esse era o segredo para o sucesso: confiança.

Entretanto, confiante, confundia-se. A generosidade e a ânsia em agradar, a esquisita combinação entre sofisticação e provincianismo, a rudeza das emoções que por vezes lhe fazia indelicado e facilmente ofendido lhe tornaram um homem perigoso. Unitário-universalista, libertário, intangível. Mas era um bom homem. Ainda se importava com alguma coisa. E acreditava que isso era o suficiente para salvá-lo. O que havia perdido em entusiasmo juvenil ganhou em experiência, que veio acompanhada de um sentimento de realização que libertava seu espírito.

Juntou-se ao melhor amigo de infância de tantas outras aventuras para revisitar a cidade maravilhosa. Eram fortes juntos pois é essa a essência da amizade: força. O Rio de Janeiro sempre seria...

27 Apr 2019

A profecia sempre foi uma profissão perigosa. Sabia disso porque aprendeu que o imaginário é subversivo e a realidade é perversa. Mas para chegar ao sublime precisava do banal, e de nada adiantava adiantar-se. Foi então que desenhou um mapa dos lugares que prometeu ir porque sentia que algo o esperava em cada um desses locais e se caso não coletasse tais memórias, se desistisse na metade, estaria incompleto e perdido, como lágrimas que se perdem nas nuvens.

Com frequência perguntavam se não tinha vergonha de escrever sobre seus amigos, seus amores, sua família, sobre ele mesmo. Respondia não porque reconhecia a essência antropocentrista da humanidade. Era algo que funcionava naturalmente, quando escrevia não se colocava nas histórias, se encontrava nelas. A fantasia se constrói com a realidade e era preciso viver para escrever. Então seguia persistente com o seu atlas, agora no país colonizador do seu próprio país. Talvez buscasse algo relacionado as origens, ao corpo, ao ego, aos probl...

15 Dec 2018

Ouro, mar e sangue. A combinação nada sútil pertinente na construção de grandes impérios dava as cores à bandeira da Colômbia, destino onde ele iniciava seu novo ciclo.

A taça de vinho quase cheia havia sido sua companhia frequente nos últimos meses e servia para disfarçar o gosto de insatisfação que sentia de vez em quando entre os dentes. Como de costume, para evitar as ressacas que perturbavam seu corpo já não tão mais jovem, intercalava a bebida com copos d’água. Corria mais de 40 quilômetros por semana, nenhum documentário ou seriado prendia sua atenção, os encontros esporádicos com amigos tornaram-se previsíveis, e já era o terceiro livro que havia desistido de ler. Ocupava a cabeça com o trabalho de corrigir textos daqueles que corrigiam textos, o que lhe trazia o dobro de responsabilidade e o inevitável cansaço intelectual. Assim como nas travessias anteriores, trabalhava para poder viajar, e poucos eram os semelhantes que compreendiam tal movimento. O som de King e Davis embala...

4 Jul 2018

Após atravessar o oceano passou pela ecdise e perdeu a cauda. Trouxe consigo a práxis do improvável junto à epifania da desordem, suas imperfeições perfeitas e seu profano sagrado. Tornou-se estóico, encarava as adversidades com serenidade, sabia que o ter é a falência do ser. Fosse alfa ou ômega, seu corpo era sua casa. Fazia sentido como a razão áurea que estruturava as edificações daquela terra, uma oferenda ao santuário de Esculápio. Palco do nascimento de artes e guerras, celeiro de grandes pensadores, arquipélago de transformações, a Grécia saciava sua fome como o banquete de Platão. E sobre a colina de Marte enxergava o que não via antes, percebeu que era um pouco de Ares, um tanto de Hércules, um bocado de Apólo. Talvez fosse helenista.

O branco veio como avalanche. Aquele que construía a identidade das ilhas gregas fazia o mesmo por ele, e lhe acalmava a ideia de carregar a completude das cores primárias junto à sua cabeça e outros pelos de seu corpo. Fazia tempo que não sentia...

25 Mar 2018

Ele tem um problema. 

Ele tem um problema porque sabe que as mentiras mais convincentes são aquelas que conta a ele mesmo. Ele tem um problema porque aprendeu a lidar com as ligações não retornadas, com os cafés desmarcados, com as distâncias, com os afastamentos, com os excessos, com os impulsos, com as expectativas, com os amores não correspondidos e com a superficialidade e fluidez das relações afetivas contemporâneas. Ele tem um problema porque sabe que tem uma alta habilidade cognitiva de autoenganação que o permite lidar com a frustração.

Ele tem um problema porque não gosta de covardia e dificilmente fica calado quando a presencia - e ele sabe que isso lhe causa tantos outros problemas mas não se importa tanto como deveria.

Ele tem um problema porque é um sonhador. E porque crê que os sonhos são baseados no ego e entende que o ego é um tanto trapaceiro. Afinal, ele também tem um problema porque é vaidoso, e reconhece a pequeneza de sua vaidade originada em seu suposto orgulho intel...

7 Jan 2018

Diziam que ele pensava rápido demais, mudava rápido demais, vivia rápido demais. Gostavam de dizer coisas sobre ele. O fato é que ele havia perdido a miopia, era diligente e possuía a virtude da raiva. Aprendera a filtrar o sentimento para transformá-lo em incentivo. Usava a dúvida a seu favor e fazia dela seu combustível. E talvez por gostar tanto do seu império interior procurava ter contato com qualquer latinidade – foi quando cruzou mais uma fronteira é que entendeu que a viagem era um pouco como as anteriores, uma busca pelo autoconhecimento.

O Paraguai era político e poético. Carregava a fama de oferecer mais por menos, mas ia além do estereótipo. A capital Assunção era força bruta, lugar de amor e caos, uma das melhores combinações já criadas pela humanidade. Os ribeirinhos desabrigados pela desigualdade social acampados em frente ao Congresso Nacional do país evidenciavam a coragem de um povo que não temia clamar por seus direitos e que ainda conservava na língua indígena o orgu...

17 Nov 2017

Era como a maioria das pessoas na contemporaneidade: marionetes que acreditam que o poder está no ter. Encorajado a manter o vício através da tecnologia e da cultura do consumo que provocava sua constante insatisfação, vivia em uma cegueira ilusória projetando como deveria ser, norteado pelas fotos do Instagram, pelo feed do Facebook, pelo casamento perfeito, pelo emprego ideal, pelo número de likes, por tudo que tinha fora e não dentro de si. Uma vida guiada por propagandas de revistas de moda e reality shows.

Por mais que tivesse certeza que não era assim, estava infiltrado no seu inconsciente e poluía sua cultura e estilo de vida. Achava que quanto mais trabalhasse, mais seria reconhecido, e quanto mais fosse reconhecido, ganharia mais. E assim seguia para manter o que supostamente conquistou. Um ciclo que o fazia vender a alma para comprar a vida.

Aos 27 percebeu que era necessário mudar a política do pensamento: começou a passar mais tempo fazendo algo por si mesmo do que tentando i...

28 Sep 2017

A alma tem estranhos refúgios. E não há barreiras que retenham o estranho. Decidi não recomeçar, mas seguir em frente. Parei de ver-me em terceira pessoa para enxergar-me como primeira, nada mais de ele, agora sou eu. Li em algum lugar que referir a si mesmo como outro era oitentista, atrasado, antigo, de-mo-dê, e influenciado por tal, deixei o passado formal para trás e junto com ele o que ficou por lá: a cegueira do coração, a surdez da alma, o mutismo da consciência. E assim como um cortesão, belo, condenado e corajoso, decidi aventurar-me nas trilhas milenares incas para conhecer o berço da civilização moderna da minha América Latina. Segui caminhando sozinho para que andassem os meus planos. Olhei para o medo de frente, dei-lhe dois beijos, agradeci pela companhia até então, e o deixei às margens da estrada, sem culpa. Peguei alguns de meus pertences e fui embora. Para quem quer ir longe, ele é o pior companheiro de viagem. E aprendi que quem tem medo, não tem outra coisa. 

Cu...

7 Aug 2017

Pedra. É perturbador como um corpo enrijece quando perde a vida. Lá estava o pai, duro, recém morto nos seus braços, em uma cama de hospital. O mesmo hospital onde havia salvado tantas vidas. Meu pai foi daqueles guerreiros que batalhara até o último minuto, e um pouco antes desse me acordou para se despedir. Curioso como praticamente havia escolhido morrer abraçado comigo, ele que foi o primeiro a me abraçar em minha vida. Um mês depois de perder meu melhor amigo eu estava em busca de novos ares na cidade que trazia no nome tal promessa: Buenos Aires.

Flores nas janelas. Tango pelas ruas. Tanta vida nas sacadas. A beleza de Buenos Aires morava também em seus moradores, que levavam consigo o charme latino de uma cidade que sabe o poder que tem. Algo de sereno e sábio que acompanha aqueles que caminham com sapatos mas reconhecem o prazer de andar descalços. De fora, calcanhar de fora. Um café, um alfajor, um bourbon. O único modo de cicatrizar é confiar - lema que repetira a si mesmo sem...

13 Jul 2017

Puro nêmesis marítimo. Era só lembrar que podia sentir o amargor salgado da mesma saliva do filho da puta que quebrou sua alma alguns anos antes na mesma areia da mesma praia. A praia que contraditoriamente trazia ares de solidão, revolta, resiliência e caos. Caribe, meu amor. O pronome que se tornou adjetivo graças às suas águas crisálidas cor de verde azulado solúvel.

Silêncio que soava como paz. O sopro na pele era brisa de verão. Sentia o calor de quase 40 graus queimar e como sempre, gostava de não usar nenhum bloqueador, como se pedisse para que aquele câncer que já queimava sua memória desde menino externalizasse e se alastrasse para seus braços, rosto, dorso e coração. O suor que vertia da barriga escorria pelas coxas de forma quase erótica, fazendo gotas que traçavam alguns caminhos que gostava de brincar de prever.

República Dominicana. País que trazia o nome da irmã mais velha que tanto odiava e que tinha sido tão importante na sua formação. Laços afetivos de sangue. Sentia-se...

17 Jun 2017

"Ser erudito é uma maneira de ser livre", afirmou o recepcionista cubano do hotel em Havana, militar aposentado formado em Direito e Filosofia. 

Vivenciar Cuba mudou para sempre seu sentido de sobrevivência. Durante o dia a capital do país pulsava num intenso movimento de circulação e à noite suas ruas adotavam um silêncio natural frágil um tanto encantador e inexplicável, como uma bolha de sabão. Eram casais enamorados no muro que contorna a orla do mar, mulheres faceiras transitando pelas avenidas e ruelas, casas de jazz e salsa que brilham no amarelo da escuridão, e um sentimento de felicidade promulgada que parece esconder certa tristeza.

Semelhante a ele, a ilha é pura contradição: o futuro havia chego mas o passado ainda não tinha ido embora, o caos estava disfarçado de tranquilidade, a revolução confundia-se com a liberdade, e a simplicidade misturava-se com o retrocesso. Aquela ilha tinha tanto a compartilhar com o mundo e ainda assim estava escondida graças ao embargo econômico...

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Uma mala na mão e várias ideias na cabeça

Meu nome é Marciano Diogo, sou formado em jornalismo e cinema, pós-graduado em comunicação, e sempre fui um entusiasta do mundo e de suas culturas e linguagens. Nesse site eu compartilho crônicas, curiosidades e experiências vivenciadas em diferentes cidades e países que conheci – para que viajantes e curiosos como eu possam se divertir e saber mais sobre os lugares. Afinal, o que é a vida sem conhecimento e diversão?

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