Espanha: as históricas e descoladas Madri e Barcelona

Bactéria mata fungo. Árvore que dá fruto leva pedrada. Rio onde tem piranha jacaré nada de costas. Tubarões já nascem nadando. Pra cavalo velho remédio é capim novo. Ou você está no cardápio ou está sentado à mesa. As aparências não apenas enganam, são mitomaníacas.

O avô gostava dos ditados populares e ele cresceu escutando e aprendendo com tais clichês. Não é a toa que quando estava na Espanha, país de naturalidade do patriarca, lembrava tanto do velho e das sábias frases que tinha sempre na ponta da língua.

Madri e Barcelona. Algum lugar transitório no meio da afirmação e a omissão, entre a realidade e a fantasia, entre o sucesso e o fracasso. Era difícil não lembrar também do filme que retratava o abalo moral e as desventuras em Barcelona de duas mulheres de personalidades tão diferentes. Sempre sentiu que carregava um pedaço de cada uma delas, das mulheres de sua vida. A pitoresca inquietude pela aventura e a cordialidade competitiva vinha da irmã mais velha, a comodidade e o apego pela estabilidade vinha da mais nova, a paixão inconsequente quase compulsiva por relacionamentos amorosos psicobsessivos vinha da melhor amiga, a força, o carinho e a empatia por estranhos vinha da mãe.

Pensava que se saímos de dentro delas, se muitos de nós fomos educados por elas, é normal que afinal carreguemos um pedaço delas. Como peças de um quebra cabeça confuso sem mapa molde, um jogo de twister sexual sem roleta, uma personalidade fragmentada nos protagonistas do The Breakfast Club. Quase como um sentimento dúbio absurdo entre o feminismo e o machismo que assola os pensamentos mais obscuros da maioria dos homens.

E se assim como ele e seu avô, Barcelona cresceu para além de suas muralhas e tornou-se uma das cidades mais cosmopolitas da Espanha, Madri tinha o feito de forma ainda mais certeira e objetiva. Uma cidade linda feita mulher madura confusa, com cabelos encaracolados e pequenas covinhas nas bochechas, que traz consigo uma tristeza acompanhada de ares de soberba instigante de se conviver. Suas mesas de bares que invadiam suas ruas, sua arte urbana pulsante que avançava por seus muros e paredes, sua música de viola e castanholas que vertia de seus palcos, seus parques verdes que cresciam de uma maneira que o lembrava que nem sempre o autoconhecimento surge da solidão. Muito pelo contrário, essas cidades fizeram ele entender que só existimos a partir do olhar do outro. Uma anedota apocalíptica antropológica.

São cidades que inspiram o histórico e expiram o moderno, e reconhecem tal poder social. Barthes disse que o real não é representável, porém a Espanha representa muito bem a si mesma, assume o que é hoje sem esconder nas arestas o que foi um dia. E a quem queria enganar? Pudesse ela ter explorado e abusado dezenas de colônias que se tornaram países, ao menos escolhas ruins fazem boas histórias.

"O documentário é sobre o outro. A ficção é sobre eu".

Jean-Luc Godard

SABIA QUE? Se você vai conhecer a Espanha, deve ir principalmente para suas cidades mais famosas, Madri e Barcelona, que ficam cerca de 600 quilômetros de distância uma da outra – é indicado fazer o trajeto de trem-bala por que a viagem fica mais curta, com apenas duas horas de duração. Fundada no século 9, Madri é a capital e a maior cidade da Espanha, com mais de 6 milhões de habitantes. Sede do Governo e da monarquia, também é o maior centro econômico e cultural do país, e apesar de ter uma estrutura moderna, preservou muito de sua arquitetura nos bairros históricos. Já Barcelona é um município mais independente por que pertence à Catalunha, região autônoma localizada ao Nordeste do território espanhol. É menor que Madri e tem uma população com cerca de 1,5 milhões de habitantes. Com um dos times de futebol mais consagrados do mundo, Barcelona tem ruelas e prédios centenários, e também tornou-se internacionalmente reconhecida graças à arquitetura típica de Gaudí, artista e arquiteto catalão modernista que criou um estilo único de projetar espaços. A moeda nacional é o euro e a língua o espanhol.

VOCÊ PRECISA CONHECER:

Palácio Real de Madri - com 135 mil metros quadrados e mais de 4.000 quartos, o majestoso palácio foi construído no século 18 e tem um visual deslumbrante. Vale a pena ao menos visitar seu pátio externo, que tem visão para suas mais de 870 janelas.

Parque do Retiro - o maior parque da cidade de Madri, criado em 1630 com uma área bem arborizada com mais de 115 hectares. É um dos parques mais bonitos que já visitei. Tem dezenas de estátuas, fontes e diversas áreas de passeio. Imperdível.

Paseo Del Prado - é uma das zonas principais de Madri, com dezenas de praças, jardim botânico e museu. É onde fica também o Triângulo de Ouro da Arte.

Triângulo de Ouro da Arte - área que reúne os três principais museus de Madri: o Museu do Prado, o Museu Rainha Sofia e o Museu Thyssen-Bornemisza. Se você não conseguir visitar os três museus, por que são todos bem grandes, vale a pena selecionar ao menos um dos três para conhecer.

Praça de Cibeles - é um dos mais simbólicos locais de Madri, localizado na região central da cidade. Tem uma fonte bem bonita e visão para alguns palácios.

A Sagrada Família - patrimônio mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Ciência, Educação e Cultura), o templo católico localizado em Barcelona é considerado a maior obra de Gaudí. Uma obra-prima modernista catalã que tem diversas torres e apresenta uma arquitetura que mistura referências do neogótico e da natureza. Vem sido construída desde a segunda metade do século 19 e segue em construção. Imperdível.

Parque Güell - projetado por Gaudí, o parque público (para entrar em parte dele é cobrado uma taxa) tem obras que utilizam a técnica da geometria regrada e do trencadis, decoração feita a partir do mosaico. Bonito para ser visitado no por do sol por que tem uma visão bacana de parte de Barcelona.

Casa Milà - igualmente projetado por Antoni Gaudí, o edifício também conhecido como La Pedrera foi construído em 1905 e tem uma fachada peculiar não convencional que não apresenta linhas retas.

Casa Batló - edifício modernista catalão colorido que atualmente é aberto ao público. Projetado por Gaudí, explora um tipo de arquitetura bem naturalista.

Palácio da Música Catalã - o teatro de música mais conhecido de Barcelona, projetado pelo arquiteto Domènech i Montaner e construído em 1905. Traz uma arquitetura modernista bela e original. Por dentro, um lustre de luz natural de vidro deixa o ambiente ainda mais bonito. Um dos teatros mais bonitos que já visitei, assistir à um show de dança e música catalã no local é emocionante e inesquecível.

La Boqueria - o Mercado de São José é o mercado municipal mais antigo de Barcelona que existe desde 1840. Conta com diversos restaurantes saborosos que comercializam frutas, carnes e vinhos. Vale a pena se organizar para almoçar no local.

TEM ALGUMA DÚVIDA OU PROCURA ALGUMA DICA ESPECÍFICA? ENVIA UMA MENSAGEM ATRAVÉS DAS REDES SOCIAIS.

POSTS RECENTES:
PROCURE POR TAGS: