Peru: os encantos e mistérios das trilhas milenares e ruínas incas em Machu Picchu e Cusco

A alma tem estranhos refúgios. E não há barreiras que retenham o estranho. Decidi não recomeçar, mas seguir em frente. Parei de ver-me em terceira pessoa para enxergar-me como primeira, nada mais de ele, agora sou eu. Li em algum lugar que referir a si mesmo como outro era oitentista, atrasado, antigo, de-mo-dê, e influenciado por tal, deixei o passado formal para trás e junto com ele o que ficou por lá: a cegueira do coração, a surdez da alma, o mutismo da consciência. E assim como um cortesão, belo, condenado e corajoso, decidi aventurar-me nas trilhas milenares incas para conhecer o berço da civilização moderna da minha América Latina. Segui caminhando sozinho para que andassem os meus planos. Olhei para o medo de frente, dei-lhe dois beijos, agradeci pela companhia até então, e o deixei às margens da estrada, sem culpa. Peguei alguns de meus pertences e fui embora. Para quem quer ir longe, ele é o pior companheiro de viagem. E aprendi que quem tem medo, não tem outra coisa.

Cusco e Machu Picchu. Um mundo feito de sítios arqueológicos e espaços arquitetônicos pioneiros que comprovam que existe relação entre a ciência e o misticismo. Dignas de toda a fama que possuem, essas cidades solares do Peru são símbolos do apogeu do império inca e da miscigenação da cultura espanhola à cultura andina - e toda essa mistura resulta em obras humanas magníficas, em um povo com uma beleza natural única, em uma gastronomia internacionalmente reconhecida e uma arquitetura histórica e colonial apurada, ou seja, em uma boa combinação para se ter uma viagem transformadora.

São cidades onde as tradições culturais potencializam as diversidades, onde o diferente soma, onde o colorido típico das vestimentas contrasta com o tom terroso das montanhas, onde as formas geométricas encontram suas funções, onde os sabores e aromas misturam-se de forma quase terapêutica, onde a identidade brota de uma simplicidade segura de que se é o melhor jeito de se viver.

Ali, no meio de algumas florestas e caminhos milenares, entendi que a completude coletiva parte da individual, que não é necessário amar a si mesmo da mesma forma como se ama os outros, e que o amor, seja fraternal ou passional, para a maioria ainda trata-se muito mais do mito do reconhecimento do que do sentimento: ama-se pelo título, pela sensação de pertencimento social, pelas fotos, pelas festas, pelos jantares e pela ilusão de não estar sozinho - quando deveria-se amar pelas risadas, pelos suores, pelas sutilezas. Barthes estava certo mais uma vez.

E lembrar do amor me fez lembrar da minha família, de um lado tão grande e patriarcal e do outro tão pequeno e confuso. Lembrei dos amigos, de amizades que deixei para trás e que sentia saudade, mas que estranhamente não queria de volta. Aquelas pessoas que cruzaram meu caminho e que eu ainda sentia algum carinho, conexão e afeto. A sábia colunista, o artista sedutor, a socialite estopim, o protótipo de peão, o herdeiro ímpio, o valete malandro, o melhor amigo de infância. Cada qual importante à sua maneira para minha formação. Lembrei dos amores, alguns charmosos e egocêntricos, aqueles clichês ambulantes, e outros desengonçados e espontâneos, tão encantadores quanto. Estavam lá todos comigo dentro de mim.

Porém dentre todos os sentimentos, eu definitivamente não estava nos Andes para tratar daquele que inevitavelmente é o mais forte da natureza humana. Ou pelo menos não era a intenção.

Foi em Cusco e Machu Picchu que compreendi algo sobre outro grande segredo da vida: o equilíbrio. Nem de mais, nem de menos. O encaixe das pedras, os nichos nas paredes das ruínas, o musgo entre as ripas no chão, o horizonte montanhoso, tudo conversa entre si e explica aos visitantes que o universo tem seu tempo e sua hora, suas etapas e seus ciclos. E se dentro dessa infinitude há algum sentido no conceito de destino individual, conhecer o Peru fez com que eu estimasse que o meu futuro fosse fugaz e memorável, que permitisse seguir aventurando-me com liberdade até o fim dos meus dias, seja onde for.

Eu aprendi a não acreditar em caminhos. Mas que eles existem, existem.

"em matéria

de tino

menino

eu tenho dez

quiser

tenho até

um destino

a meus pés".

Paulo Leminski

SABIA QUE? Com cerca de 31 milhões de habitantes, o Peru tem como capital a cidade de Lima, mas Cusco e Machu Picchu seguem sendo as cidades mais turísticas do país que faz fronteira com o Brasil, Colômbia, Equador, Bolívia e Chile. De colonização espanhola, o Peru tem uma população com alto grau de miscigenação e é internacionalmente reconhecido por sua rica cultura e gastronomia. Inclusive o país é considerado um dos berços culturais da civilização latina: os primeiros indícios da presença humana no território peruano datam de aproximadamente 10.560 a.C, o que viria a tornar-se a mais antiga e complexa sociedade conhecida nas Américas. Já a ascensão do império inca aconteceu no país no século 15 graças à técnicas engenhosas e pioneiras de agricultura e pecuária - localizadas nos Andes, Cusco e Machu Picchu são os maiores representantes restantes desse povo que mudou para sempre a forma e estilo de vida de seus futuros habitantes e de parte do resto do mundo. Para conhecer as ruínas de Machu Picchu, que foi apelidada durante muito tempo de Cidade Perdida por que ficou dezenas de anos abandonada devido sua localização no meio da selva e alta altitude de cerca de 2.400 metros acima do nível do mar, você obrigatoriamente deve passar por Cusco e Águas Calientes, que é outro município que fica próximo do local. De lá, segue por trilha, trem ou outro transporte até o parque arqueológico - são alguns deles espalhados pelo território. Enquanto Cusco tem cerca de 300 mil habitantes e 3.600 metros de altitude, Machu Picchu é aberta apenas para visitantes, porém Águas Calientes, também chamada de Machu Picchu Pueblo, que fica próxima à cidade originária, tem 2.400 habitantes e é totalmente voltada para o turismo. O espanhol é a língua nacional do Peru, porém o quíchua, um dialeto que ainda é falado por parte dos conterrâneos, tem sido recuperado e ensinado em um movimento de valorização da cultura nacional. Como a altitude dessas cidades é bem alta, há algumas alternativas para quem sente tal alteração no corpo, como chá de ervas ou de coca, planta considerada sagrada que era mascada pelos incas e ainda é muito utilizada pelos peruanos. Há também diversos sítios arqueológicos que ficam em torno dessas cidades, e a dica para quem quer conhecê-los é comprar os boletos turísticos e pacotes que são comercializados em dezenas de agências espalhadas por Cusco - vale a pena comparar os preços. A moeda do país é o Novo Sol, ou soles, apesar do dólar ser bem aceito em praticamente todos os estabelecimentos.

VOCÊ PRECISA CONHECER:

Plaza de Armas - é o ponto central da cidade de Cusco, com igrejas históricas e dezenas de comércios e restaurantes. É movimentada durante o dia e a noite.

Centro Artesanal Cusco - imperdível, o mercado é onde o artesanato local é comercializado em sua maioria em diversas lojinhas.

Mercado San Pedro - mercado municipal de Cusco, tem uma rica variedade gastronômica em diversas barracas com um preço bem acessível. É bem rústico e saboroso, vale a pena aproveitar pra comer um ceviche ou cui.

Museu Inka - reúne uma coleção folclórica de arte, artefatos e arquitetura inca em um ambiente simples à moda antiga.

Rua Puma - como Cusco foi originalmente construída em desenho de formato de um Puma, animal que simbolizava a força para os incas, a rua que leva o nome do animal corta praticamente todo o centro da cidade e é uma das principais do município. O bacana é percorre-lá e perder-se nas ruelas que a cruzam.

Pedra dos Doze Ângulos - localizada em uma rua que faz cruzamento com a Puma, a pedra incrustada junto de um muro de outras pedras tornou-se ponto turístico por ter 12 diferentes pontas. Conta-se que os ângulos representavam as 12 famílias mais poderosas do império inca, e caso a pedra seja retirada do muro, ele inteiro viria ao chão, pois é ela que o estrutura.

Qoricancha - chamado de o Templo do Sol e localizado no centro histórico de Cusco, servia como local para cerimônias e estudos de astronomia e matemática. A entrada custa 10 soles e é um passeio que abrange arquitetura, história e arte, em que se pode conhecer um pouco mais da cultura inca.

Vale Encantado dos Incas - localizado nos Andes peruanos, reúne diversos parques arqueológicos e paisagens inesquecíveis. É integrado por diversos povos indígenas e comunidades, são elas Sacsayhuaman, Kenko, Tambomachay, Pisac, Machay, Maras, Ollantaytambo, Machay, Chinchero e Urubamba.

Saqsaywaman - O Parque de Saqsaywaman tem 10.000 anos de existência e é conhecido como fortaleza, apesar de não ter tido nenhuma função militar. O lugar é outro sítio arqueológico que funcionou como centro cerimonial, uma zona sagrada e de estudos. Ele fica a 3.650 metros de altura em relação ao nível do mar e foi construído com pedras enormes. A entrada custa 70 soles, mas, se você comprar um bilhete de 130 soles, terá direito a conhecer outros pontos turísticos da região.

Ollantaytambo - com 3.000 hectares no total, conta com ruínas incas e um povoado bem charmoso, com ruas de pedras e as cholas com roupas coloridas típicas. Fica em um local estratégico entre Cusco e Machu Picchu, por isso é considerado também imperdível para se conhecer, lá é possível observar a apurada inteligência da cultura inca, que tinha depósitos armazéns para estocar alimentos em tempos de baixa safra.

Pisac - um dos parques arqueológicos mais ricos em história do Peru, com ruínas milenares relacionadas à agricultura e astronomia. Também chamada de Pisaq, o local tem uma comunidade que tem uma praça central bem charmosa. Já as ruínas do território estão atribuídas às eras pré-incas e incas, tem 3.400 metros de altitude e já foi um centro administrativo e foi construído com arquitetura especial, própria para evitar possíveis danos provocados por abalos sísmicos. Suas terraças são peculiares e também se destacam os buracos feitos nas montanhas para depositar mortos e corpos mumificados.

Salinas de Maras - ainda localizado no Vale Encantado, essas salineras contam com mais de 3.000 piscinas direcionadas à extração do minério. A visão é impactante e deslumbrante.

Comunidade de Coral e povo de Poroy - ambos povoados charmosos que ficam em torno de Cusco, ricos em história e produção de artesanato. Curiosamente, a maioria dos tecidos e roupas peruanas fabricadas artesanalmente são produzidas com lã de alpaca e utilizam apenas tingimentos naturais, extraídos de plantas e frutos. Nesses locais é possível acompanhar esse processos com mais propriedade.

Moray - com 3.500 metros de altitude, o sítio arqueológico sintetiza toda a potência e pioneirismo em agricultura que teve o império inca. Assim como Cusco, também é chamado de "umbigo do mundo", por que a cultura inca acreditava que ali é o centro do planeta. A dica aqui é aproveitar para contemplar as construções redondas, também nomeados de quatro olhos, pois são quatro delas.

Chinchero - localizado na província de Urubamba, esse local resume bem em suas construções como os espanhóis, de certa forma, destruíram com o império inca - é possível observar a base das casas feitas de pedra substituída pela arquitetura barroca.

Águas Calientes - também chamada de Machu Picchu Pueblo, essa comunidade com cerca de 2.500 habitantes fica em torno do parque arqueológico de Machu Picchu e é totalmente voltada para o turismo, com diversos restaurantes e hostels. Vale a pena dormir um dia no local se você vai conhecer o santuário, de lá segue de trilha ou de ônibus para o mesmo.

Parque Santuário de Machu Picchu - patrimônio cultural da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), o santuário é considerado uma das sete maravilhas modernas do mundo. Um passeio de algumas horas pelo parque é, para muitos, uma experiência de mudança de vida. Indica-se fazer um tour guiado ou uma boa leitura para compreender todos os detalhes do complexo. É daqueles destinos que você tem de colocar no topo da lista de lugares para conhecer antes de morrer. A Cidade Perdida comemorou 100 anos de seu descobrimento em 2011 e tem uma energia única que permite aos visitantes desvendar um povo que guardava conhecimento muito avançado para a época, seja em astronomia, agricultura ou religião. O sítio arqueológico está 2.450 metros acima do nível do mar e foi povoado entre os anos de 1450 a 1540. As famílias que lá viviam cultivavam, principalmente, milho e batata e deixaram a cidade antes da chegada dos espanhóis, provavelmente motivados por moléstias. A cidade fica numa região que recebe muitas chuvas no verão, e o período entre novembro e março não é aconselhável para sua visita. E não esqueça de carimbar o passaporte quando passar por aqui, é uma marca que todo viajante mochileiro deve ter. Para conhecê-la, é necessário pegar um trem partindo de Ollantaytambo, através da Inca Rail ou Peru Rail, de lá segue para Águas Calientes e depois vai de trilha ou ônibus para o santuário. Eu aconselho comprar os tickets do período de visita pela manhã, onde o local ainda está menos tumultuado de turista e é possível conhecê-lo com mais tranquilidade.

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