Vietnã: comunismo, carisma e cultura em Hanói e Halong Bay

Ele ainda estava imerso em pensamentos com o telefone em mãos quando ouviu uma voz atrás de si que alertava nos megafones espalhados pela avenida sobre a rápida propagação do vírus mortal que tomava o continente onde se encontrava e que já se expandia para as outras regiões do planeta. Não conseguia deixar de pensar na relação entre o poder de mutação e resistência do vírus e a sua semelhança ao ímpeto motor dos políticos que pouco representavam a maioria das pessoas que supostamente lideravam. Ambas as realidades haviam se tornado pulsantes em seu cotidiano, a corrupção e a doença.

Depois de percorrer o Vietnã começava a acreditar que isso acontecia em todos os lugares do planeta: os ditadores, os oportunistas, o parasitismo político, as intoxicações ideológicas. E mesmo com diferenças, ainda era algo naturalizado em todos os países que percorreu, mas ainda assim ele sentia-se forte para provocar a revolução e a mudança quando necessárias. Ele gostava de crer que essa força e coragem de ser resistência para mudar o mundo para melhor vinha do seu senso de liberdade. Mas como poderia ele ser um liberal? Dizem que todo homem nasce livre e igual, porém encontra-se acorrentado por toda parte assim que chega ao mundo. Sabia que a própria ideia sistemática de liberdade era ilusória e refletir sobre as dificuldades da alteração dela o entristecia. Entristecia-se o suficiente até entender que o equilíbrio é importante até quando se trata de liberdade.

“Mas se tudo isso que você enxergou foi tão impactante para não conseguir transcrever e traduzir, você tem que falar desse bloqueio”, afirmou ela com aquela calmaria refinada que tanto encantava a qualquer um a quem direcionava as palavras. E tinha razão, entre tantas incertezas que o incitavam diante do contexto, a verdade é que conhecer o Vietnã o transformou de maneira que ele nunca mais voltaria a ser o mesmo. O que o mudou desta vez foi o impacto que teve com o contato com aquela cultura oriental que se refletia no comportamento e crenças tão potentes, carregados de um autêntico orgulho de ser o que se é e de um verdadeiro senso social de coletividade.

Curiosamente, as guerras haviam marcado aquele país como nenhum outro onde esteve anteriormente, e as guerras ocorridas ali estavam completamente relacionadas a tal liberdade que ele tanto buscava e que paradoxalmente o entristecia e o incentivava. Agora, a guerra atual era contra uma pandemia de origem asiática que se agravava com o decorrer do tempo. E prejudicava o princípio originário da liberdade, o direito de ir e vir.

Naqueles dias as máscaras de saúde, já habituais da cultura oriental, pareciam se multiplicar nos rostos, deixando apenas os olhos à mostra. Lembrou do costume habitual de vestimenta do Oriente Médio que visitou há alguns anos e achou bizarro tal conexão de pensamento. Os tempos eram outros.

Ainda assim, havia esperança. É claro que havia, sempre há de haver. Mesmo no caso de a esperança ser muito pequena, não tinha o direito de não usar as possibilidades. O clima estava tenso no domingo e ele sentia-se muito cansado, visto que ficara até tarde na rua bebendo, celebrando o eterno fim dos tempos com alguns habitués, e que quase perdera a hora de acordar.

Vestiu-se às pressas, sem tempo de pensar e reunir os diversos planos que arquitetou durante a semana para o próximo país que conheceria. Sem café da manhã, correu para fora do subúrbio rumo ao aeroporto. Estranhamente, embora tivesse pouco tempo para olhar ao redor, deparou com os três funcionários do hotel envolvidos em sua instalação e todos pareciam surpresos e debruçaram-se sobre a bancada onde estavam próximos quando ele passou. Era oficial: com a lei marcial instituída, ninguém mais entrava ou saía do país durante o tempo que o Estado determinasse.

Precisava de meia hora para chegar ao seu destino e a motocicleta era o único meio possível. Ele adorava a solução. Amarrou a mochila nas costas, fez um rápido acordo cambial com o piloto e montou na moto que acelerou por algumas das mais largas vias de Hanói. Chegou a tempo, embarcou no avião com o coração apertado, queria ter prolongado ainda mais sua visita ao Vietnã mas já não podia. A satisfação de ter vivenciado o que viveu lá e o chamado do próximo dever o tranquilizavam. Fechou os olhos, levantou voo e dormiu.

O urgente geralmente atenta contra o necessário”.

Mao Tse-Tung

SABIA QUE? Com independência reconhecida apenas em 1954, o Vietnã é um país localizado no leste do Sudeste Asiático, região também conhecida como Indochina. Faz fronteira com a China, o Laos e o Camboja e tem uma população com cerca de 95 milhões de habitantes, sendo um dos países mais populosos do mundo. Desde de sua reunificação em 1976 após a última guerra que enfrentou, tem Hanoi como sua capital. O Vietnã tem em sua história diversos conflitos armados, dinastias reais sucessivas que assumiram o país até a tentativa de colonização dos franceses no século XIX, e na sequência sofreram uma outra tentativa de ocupação da China e então novamente da França, o que resultou na expulsão dos franceses em 1954. A partir daí então, o território foi dividido entre o Norte e o Sul, e com a intensificação do conflito houve a interferência dos EUA, que resultou na histórica Guerra do Vietnã, que veio a terminar com a vitória norte-vietnamita. Após a vitória do Vietnã do Norte sobre o Vietnã do Sul, representado pela Frente Nacional de Libertação do Sul do Vietnã, o país passou a ser a República Socialista do Vietnã, mantida até aos dias atuais. O Partido Comunista do Vietnã é atualmente o único partido político legal no país. É um Partido Comunista marxista-leninista apoiado pela Frente da Pátria Vietnamita. Na maioria dos casos, a imprensa e pessoas referem-se ao Partido Comunista do Vietnã como "Đảng". Atualmente, a liberação da economia caminha junto das ideias socialistas e comunistas no país. Quanto à religião, curiosamente com todo sincretismo e influência do budismo e hinduísmo, maioria do vietnamitas se considera ateus. Mais curioso ainda é que o Vietnã e bem supersticioso e cheio de lendas locais e pequenos altares espalhados pelos espaços públicos – nestes alguns crentes fazem oferendas e pedidos, que são escritos em papéis e queimados na sequência (diferente da Tailândia, onde os pedidos são literalmente arquitetados e materializados em forma de papelão e queimados nos altares dos templos). No Vietnã, o reverenciado nos templos não é o Buda ou outra santificação, mas sim os antepassados, os guerreiros da história da nação e criaturas fantásticas como dragões e fênix, além das tartarugas. Outra questão atípica no Vietnã, além da religião, é a mobilidade urbana: por exemplo, na capital Hanói, existem oito milhões de habitantes para cinco milhões de motos, e os semáforos de trânsito são bem raros nas vias, então vale redobrar a atenção se o visitante vai circular a pé pela cidade. A língua oficial é o vietnamita e a moeda é o Dong.

VOCÊ PRECISA CONHECER:

Quarteirão francês - o french quarter traz ares românticos em meio a caótica capital vietnamita. Tem diversas lojas, hotéis e restaurantes e é bem diferente do chamado old quarter, que apresenta um movimento mais enraizado e menos romantizado da cultura local. Neste bairro sobrou algo de romantismo da Belle Époque e é nisso que parte da cidade se apoia para construir o seu carisma e identidade. O bairro francês está também na cena cultural com mais de cinco museus, entre eles o Museu Nacional de Belas Artes.

Lago Hoam Kiem - principal ponto de encontro de Hanói, o grande lago marca a divisão entre o french quarter e o old quarter. É ótimo para fazer uma caminhada ou mesmo para sentar e observar as pessoas se exercitando, pescando e fazendo outras atividades. Ao seu redor há dezenas de lojas e restaurantes, e ao visita-lo não deixe de ir ao Templo Ngoc Son, que fica no meio do lago. A entrada custa cerca de 30 mil dongues (pouco mais de R$ 4). Aprecie a travessia pela ponte até a entrada do templo, é um ótimo momento para tirar umas fotos. O templo em si é pequeno, mas bem bonito e conta com diversas esculturas. Funciona das 8h às 17h.

Mausoléu e Museu de Ho Chi Minh - presente nas notas da moeda vietnamita e reverenciado por grande parte da população, o político Ho Chi Minh é um cultuado líder comunista responsável pela independência e resgate econômico do país pós-guerra contra os EUA. O mausoléu é onde encontra-se até hoje o corpo do líder que teve importância fundamental na independência do país em relação aos franceses e na guerra contra os Estados Unidos. O corpo de Ho Chi Minh está preservado em um caixão de vidro no salão central do mausoléu.

Esse é um dos principais pontos de interesse de Hanói para os turistas. Para visitá-lo, fique atento que o local é cheio de exigências. Logo ao lado do mausoléu fica o museu que descreve a vida do líder político. Ambas as construções são bem imponentes em sua arquitetura, e vale muito a pena a visita para os interessados em história.

Pagoda de um Pilar - bem próximo ao museu Ho Chi Minh, no mesmo quarteirão, fica localizada a famosa pagoda de um pilar, um pequeno templo budista com arquitetura característica de sustentação dada por apenas um pilar. A inspiração da estrutura é a flor de lótus, por isso o templo tem um pequeno lago ao seu redor. O templo já possui quase mil anos, mas já passou por algumas reconstruções ao longo desse tempo. É aberto ao público e a entrada é gratuita, ficando aberto das 8h às 17h.

Templo da Literatura - construído em 1070 em homenagem ao filósofo Confúcio, o Van Mieu, conhecido como Templo da Literatura, foi a sede da primeira universidade do Vietnã. A universidade que funcionou no local por 700 anos era restrita aos príncipes e à nobreza do país. Tem vários jardins ao seu redor e pequenos detalhes espalhados por toda a sua arquitetura, além de telhas de pedra e diversas esculturas de tartarugas esculpidas, além de estátuas em forma de fênix e dragões, alguns dos animais fantásticos símbolos do país. Pessoalmente, achei o templo mais bonito da capital. A visita é imperdível. Outra curiosidade é que, além de ponto turístico, o templo é também ponto de encontro de formandos vietnamitas, que usam a estrutura do lugar e seus jardins para as tradicionais fotos de formatura. O templo fica aberto das 8h às 17h e custa 30 mil dongues (cerca de R$4).

Cidade Velha - a cidade velha, também chamado de Old Quarter, é o centro onde as coisas acontecem em Hanói. Um movimento doido de pessoas e veículos tomam conta do Old Quarter, que nunca para. Existem muitas lojas e restaurantes, e os imóveis são bem estreitos e amontoados. A cena mais comum é ver gente fazendo comida na calçada, então se você for um entusiasta da gastronomia mundial, aproveite para saborear a comida de rua vietnamita - não esqueça de provar os peixes de água doce, os noodles de arroz e os dumplings. Também é um ótimo local para se hospedar, pois está próximo de todos os pontos turísticos, é seguro e possui muitas opções para comer, beber e fazer compras. Aproveite também aqui para provar os tradicionais Bia Hoi, chope típico do Vietnã, e o café de ovo, bebida misturada com ovo que foi inventado pela escassez do leite e adotado culturalmente no país.

Ha Long Bay - conhecer a Baía de Hạ Long, no litoral nordeste do Vietnã, é imperdível caso você visite o país. Localizada a cerca de 160 quilômetros de distância da capital, a baía tem cerca de 1.600 ilhas e ilhotas, grande parte delas inabitadas. A região tem águas verde-esmeralda e milhares de imponentes ilhas de calcário cobertas por florestas tropicais, que tem formas impressionantes – Ha Long é apelidada de “dragão adormecido” devido a esses curiosos formatos. Os passeios de junco e as expedições de caiaque no mar levam os visitantes por ilhas que têm nomes iguais aos formatos delas, como as ilhotas Cho Da (cachorro de pedra) e Am Tich (chaleira). A região é bastante procurada para mergulho e também para escalada e trilhas, sendo possível entrar em cavernas gigantes. O passeio pode ser facilmente adquirido na capital vietnamita e como a região não fica tão distante da cidade é possível ir e voltar no mesmo dia, mas muitos optam por passar alguns dias em cruzeiros nessa baía paradisíaca. A baía de Ha Long é patrimônio mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), reconhecida como uma das 7 maravilhas modernas do mundo, e o local tem uma energia potente que não senti em nenhum outro lugar do planeta.

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